terça-feira, 29 de abril de 2008

Obsessão

Obsessão - 1.Impertinência, perseguição, vexação. 2.Psiq. Pensamento, ou impulso, persistente ou recorrente, indesejado e aflitivo, e que vem à mente involuntariamente, a despeito de tentativa de ignorá-lo ou de suprimi-lo; idéia fixa, mania. 3. Andar na rua pensando que todo e qualquer edifício bem localizado e de aspecto agradável pode ocultar uma grande oportunidade de aluguel.

Ia eu para mais uma tentativa natimorta de acerto com uma imobiliária quando me deparei com um simpático prédio laranja, de jardim com flores na entrada e muito bem localizado na cidade. Parei por uns segundos apenas para verificar se não existia nenhuma placa com as palavras cabalísticas "Aluga-se" em alguma janela. Eis que uma moça de sorriso largo aparece na porta e pergunta se eu não quero entrar.
Eu podia ter sido sincera e contado que estava apenas verificando se alguma das unidades estaria vaga, mas não! Eu simplesmente sorri e agradeci à moça que tão gentilmente segurou a porta enquanto eu entrei.
De fato, o hall de entrada do prédio era muito aconchegante, de bom gosto até. Mas não havia nenhum zelador ou porteiro para quem eu pudesse perguntar:
_ Afinal, tem algum apê pra alugar aí?
Tinha mesmo uma câmera de vigilância que ficou lá, me encarando, enquanto eu passei 10 minutos andando de um lado para o outro trancada, sem ter idéia de como fazer para sair. O tempo correndo, eu tinha hora para chegar no trabalho. Meu Deus! Nenhum interfone, nenhuma pessoa, nada.
Aí subi o primeiro lance de escadas em direção aos apartamentos. Vozes vinham de uma porta de madeira em que uma plaquinha dizia "Bem-vindo". Eu acreditei na plaquinha e bati na porta. Uma velhinha gorda de cabelos amarelos abriu. Foi aí que eu menti:
_ Eu fiquei presa aqui dentro. Será que a senhora pode abrir a porta pra mim?
(Se eu fosse um mulatinho magro, certamente ela teria chamado a polícia)
_ Mas menina, como é que você foi ficar presa aqui dentro?
_ Eu andava atrás de um apartamento para alugar e achei que fosse aqui... mas pelo visto eu me enganei... não tem nenhum apartamento vago aqui, tem?
_ Não tem não. Mas qual é o edífício que você está procurando?
_ Ah, eu não sei bem... deve ser mais para a frente...
(A essa altura ela já abriu a porta da frente _ trancada por senha _ e eu já estou dando adeus na calçada)
_ Mas obrigada pela atenção.... um bom dia pra senhora!

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Mimetismo

O objetivo é fazer parte do lugar, então a gente se mistura. Não se assuste, nesses casos, se um velhinho lhe perguntar qualquer coisa em alemão na parada de ônibus, em Joinville. Sorria e responda que sim com a cabeça.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Saudosismo

Porque gosto muito deste texto e porque estou em uma semana de nostalgia. Porque Ele me escreveu, e eu fiquei morrendo de saudade. Porque pensar Nele sempre me faz lembrar que raios, afinal, eu estou fazendo no jornalismo. Por tudo isso, aí vai a reprise de Lucio Vaz:

Lucio Vaz é um homem que sabe beber. Recusou cerveja, disse que estava com a garganta ruim. Aceitou um cálice de JP, um vinho gaúcho barato. Pediu tinto seco e uma garrafa de água sem gás.
Sabe beber porque espera. E nós, no afã da juventude, sorvemos tudo. Bebemos mais de cinco garrafas de cerveja, a água de Lucio Vaz e todas as suas histórias.
Dez anos na Folha de S. Paulo como repórter de Política renderam a ele uma invejável lista de contatos e, mais do que isso, a ciência do jogo no Planalto Central. Qual funcionário tem acesso à folha de pagamento da Câmara? Como escutar e noticiar a fala de um parlamentar em reunião fechada? Que gostos, que manias, que taras tem certo deputado?
Isso exige tempo. Degustar aos poucos e não deixar embriagar-se. Porque o Congresso é jogo de poder, que, quando corrompe, escorre pelos cantos da boca, como bem descreve Lucio Vaz. Aí a pilha de denúncias que chega a sua mesa todos os dias, as quais nem dá conta de investigar.
O jornalismo que denuncia, que descobre fraude, crime. Esse leva tempo. Um ano, até dois na mesma investigação. É preciso calma. Quem fala? O que prova? A quem interessa?
Na mesa do bar, após a fala regulamentar no auditório azul da Feevale, Vaz adiantou: leva-se no mínimo uma década para começar a receber informações. Ainda não estamos com pressa. Afinal, como sintetiza a máxima ululante do companheiro Wando, do Centro Acadêmico da faculdade, “o jornalista é uma pessoa”. E demora mesmo pra ser gente.
Depois disso, Novo Hamburgo ficou pequena demais. E aí fomos para Porto Alegre.
(18 de maio de 2006)

terça-feira, 1 de abril de 2008

Casinha do cachorro

Foi na década de 1980. Não lembro ao certo se ela tinha 3, 4 ou 5 anos quando o fato ocorreu. O que sei é que inventou uma maneira inconseqüente e criativa de fugir dos olhos nem tão atentos da empregada responsável por cuidar das crianças e da limpeza da casa. Numa tarde qualquer, se escondeu dentro da casinha do cachorro, que ficava no pátio de chão batido. A rua em frente – cenário de suas brincadeiras com amiguinhas e amiguinhos – era asfaltada, mas calma. Garantia que as crianças por ali ficassem livremente até o anoitecer, sem que os pais enlouquecessem, sem que grandes preocupações os perturbassem. Bem, voltando à casinha: deve ter sido construída pelo irmão mais velho ou mesmo pelo pai. Era azul e de madeira, acho. E grande, já que abrigava um vira-lata de média estatura. A menina lá se abancou, bem faceira, e levou algumas bonecas. Passou a tarde brincando. Enquanto isso, a empregada andava histérica à sua procura pela vizinhança, batendo de porta em porta. Deve ter chorado, tamanho o desespero, evocado todos os santos em orações, feito promessas, imaginado que estaria no olho da rua em poucas horas. A criança sumiu por uma tarde inteira. Deu as caras depois de brincar até cansar, no início da noite, hora em que a mãe costumava chegar do trabalho. Tinhosa, alegremente tinhosa.


Ontem, Luciana, minha irmã, a filha do meio (que sempre achou ruim ser a-do-meio), protagonista desta história real, completou 25 anos. Deu vontade de tornar público um pequeno (mas significativo!) fragmento da biografia dela. Foi a minha parceira de infância. Agora, é companheira de apartamento. Desde sempre, a pessoa com quem travo brigas homéricas seguidas de risos e demonstrações de afeto.

segunda-feira, 31 de março de 2008

No carro com a Soberana

Essa Miss Simpatia que eu conheci morava em uma casinha de madeira pintada com azul descascado. O marido lhe abriu a grade cinza que determinava os limites entre o pátio do lar e a rua e lhe deu um beijo no rosto quando o uno mille branco chegou. A motorista era uma funcionária da prefeitura, uma moça falante, que logo elogiou o traje da Soberana:
_ Gostei muito dos modelos novos. Ficou mais bonito em ti, que tem mais peito _ falou.
A Miss Simpatia usava um vestido verde com avental vermelho, decote em formato de coração arrematado por um broderi branco. No pescoço, um colar de strass, e nos cabelos, grampinhos do mesmo material. Os fios estavam armados em um coque que deixava soltos os cachinhos aloirados atrás e, na frente, era arrematado por um topete.
_ Eu não gostei do decote. Quando eu engordo, a primeira coisa que aumenta são os meus titis _ disse, usando uma expressão infantil para os próprios seios.
Para proteger o penteado do vento, Miss Simpatia tentou fechar a janela do Uno. Foi difícil. O vidro estava solto, e ela precisava puxá-lo com a mão enquanto usava a manivela.
_ Por enquanto, vamos ter que nos arranjar com esse carro aqui. O prefeito diz que não vai comprar nenhum novo esse ano, porque, se ele perder, vai deixar tudo pra quem ganhar a eleição _ diz a funcionária.
Depois de conseguir proteger o penteado do vento, conferiu o visual no espelho retrovisor. Com as duas mãos, acariciou os cachos e contou:
_ Dormi com dois travesseiros, quase sentada, pra não estragar. Mas acho que desmanchou um pouco atrás.
_ Nada. Tá bonito ainda.
No salão, ninguém notou que o penteado das Soberanas era reciclado de uma noite para a outra. Elas desfilaram com elegância, sorriram e cantaram o jingle da festa municipal. Posaram para fotos com homens gordos e crianças de colo. Foram embora antes que o chope começasse a derrubar os participantes da festa.

domingo, 16 de março de 2008

As batatas através da arte

Vincent van Gogh, The Potato Eaters (1885). óleo sobre tela, 81,5 x 114,5 cm


Vincent van Gogh, The Potato Peeler (1885). óleo sobre tela, 40,6 x 31,8 cm


Leonard Brooks, Potato Peelers (desconhecido). Têmpera de ovo sobre papel, 32,7 x 38,4 cm


Eduardo Lorea, As descascadoras de batatas (2008). Imagem digital, 36,58 x 27,43 cm

sexta-feira, 14 de março de 2008

Do Carrefour

A vendedora Rosimar Aita bem que tentou atender ao pedido do filho para esta Páscoa. Valentim Aita do Nascimento, 5 anos, queria um ovo de chocolate com um brinquedo que disparasse teias iguais às do Homem-Aranha do cinema. A mãe procurou o produto em todos os mercados da cidade, mas não encontrou. Tentou explicar para o filho que o brinde não existia. Foi então que Rosimar ouviu a explicação:
_ Não, mãe. Não adianta procurar no supermercado. Tem que falar com o Coelhinho _ explicou o pequeno.